notícias de um conjugado

histórias, poéticas, memórias: para uma práxis radical.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Dias
nublados

penso
no vasto mundo
da senhora
do submundo
da praça da bandeira
na sexta-feira.

penso
no homem surdo
que canta
o obscuro
que funda
o dia raro
que lê o obtuário
e que inventa
ritual
sabático
sarau
calado
o fim do anoitecer.

Sonho
com a menina
e sua adrenalina
no jogo da
amarelinha
na serra da mantiqueira
da cachoeira
sem segunda-feira.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

teoria crítica ( um poema para Benjamin).

Óculos de vidro
Enxergam quebradiços
Suspiros
invisíveis a olho nu.

Muro no fundo
Da dor
Não vê sem óculos.

Flor a mercê
Da luz
Se vê sem óculos.

Mensch
mit Brille

vê,
no dia
Que se inicia,
a luz e a dor.

sábado, 19 de setembro de 2009

A imagem contra a palavra

Na sala escura a rua
organiza a platéia.
A vela da memória
projeta-se na tela.
Mudança brusca
a técnica.

- garotos de Paris e de Roma brincam de peles vermelhas, polícias e ladrões.

Fixação em Lilian Gish,
solilóquio silencioso,
reação e retorno
da atenção na história.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Não tenho televisão e, portanto, ouvi apenas no início da manhã a rádio e lí na internet as notícias transmitidas pela grande imprensa. Depois, eu ouvi a cidade do meu conjugado (na fronteira entre a República e a Bela Vista), e iniciei o capítulo sobre a ortodoxia marxista no “História e Consciência de classe” de Lukacs. Ao parar para tomar um café e descansar alguns minutos, ouvi na Rádio CBN, da família Marinho, uma discussão no congresso nacional sobre a votação de uma lei para diminuir a carga horária de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem a diminuição do salário. Sindicatos dos trabalhadores e dos empresários foram com suas bandeiras e chamadas de ordem lutar por seus interesses imediatos. Mas a consciência da totalidade com a qual a classe do proletariado outrora aspirava o poder e a extinção da sociedade de classes, como via-se com mais freqüência na luta de classes organizada em outras fases do capitalismo; restringiu-se a uma luta por tentar abrandar no interior do próprio status quo o movimento do Capital em massacrar a sua força de trabalho. Em tempos de precarização e informalização do trabalho, em que uma multidão de miseráveis busca a todo custo a sobrevivência; as doenças por desgaste físico e mental, em decorrência do aumento da labuta diária , estão em pauta tanto nas indústrias farmacêuticas em convênio com sociedades de psiquiatria, quanto nos hospitais públicos e nos suicídios do metrô. O passado histórico individual e coletivo, como diria Debord, com o advento da sociedade do espetáculo, deu lugar a um presente eterno e autoritário do gozo; assim como os fracassos - as demissões, doenças,prisões, pobreza, miséria - passam a ser responsabilidade restrita do indivíduo. O peso nas costas insuportável e a utopia da mercadoria fixa nos órgãos genitais, e nos pesadelos cotidianos configuram o cenário do debate que se realiza em Brasília no dia de hoje. Trabalhadores como em um último suspiro pedem o mínimo, uma demanda quase tão achatada quanto a subjetividade sob a guarda de muitas miligramas de antidepressivos. E um piolho, um tal de Sardenberg defende na rádio a manutenção das horas de trabalho com o argumento,entre os quais, de que na França e na Inglaterra está se aumentando, pois “é melhor para economia”.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A existência é um mar


(Poema Inspirado no ensaio a crise do romance de Walter Benjamin)


A existência é um mar
As categorias estão fora, na areia.
Enquanto a experiência afunda
Margeia
As pedras aonde dormem as sereias.

E a experiência vê,

A morte do peixe-espada,
Cauda
Pontiaguda que fura;

As rusgas de um marisco e um tubarão
Para decidir se o destino
Poderá ficar aqui ou não.
Onde mora a espera
e um camarão


Cada um fica onde está
E o destino
Dormirá sob a guarda de um
Vulcão.

As sereias serão.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O tempo em Natal se intercala entre sol e chuva, mas quando o sol se abre entre as nuvens a paisagem se desprende do inverno e me leva à praia quase correndo. Ali sempre conheço algum turista ou um nativo, com o qual me enveredo em conversas sobre a cidade de Natal, sobre a cidade de São Paulo, ou qualquer outro lugar já visitado por um de nós. Um desses encontros se deu com um casal ( uma potiguar e um coreano adotado por noruegueses) às vésperas do casamento. Residentes em Oslo, o casal estava em Natal apenas para um casamento útil, pois iria legalizar a brasileira na Noruega e poderiam, assim, viver alguns dias neste clima impensável para os padrões setentrionais europeus. Estavam acompanhados de um dos conselheiros do ABC ( o clube mais popular de Natal), que me contou em detalhes o seu sofrimento com o time em crise, ameaçado para a série C do brasileiro. Foi um dia de muito sol cujo tema era a Noruega e a fria pela qual passava o time potiguar. No fim depois de saber algumas peculiaridades de Oslo, como a outra sociabilidade de seus habitantes; depois de muita cerveja, e sol sobre o rosto, fui convidado para assistir ABC e São Caetano , mas cansado deixei de assistir a invernal goleada do time paulista por 4 x O.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Retorno hoje do Recife. Cinco dias sem praia, pois o Posto da Panela, bairro de classe média alta onde fiquei, é bem longe de Boa Viagem. Percorri de carro a cidade e vi uma sucessão de paisagens de um local que não é mais completamente desconhecido . Nasci aqui e pisei na sua superfície. Mas não mergulhei na Boa Viagem, com seus arrecifes que separam os banhistas dos tubarões, em um mar tingido por raios de sol com vários tons de verde. Não sai nas noites do Recife antigo, quando saí, pouco tempo fiquei observando pessoas nunca vistas nem sequer de relance, com seus sotaques pitorescos. É o preço por sair só na cidade natal desconhecida. Os nãos, por sua vez, param por aqui e dão lugar à Olinda dos bonecos, de casinhas coloridas, e da vista deslumbrante para Recife; ao famoso Guanhamun comido à mão, ao Capibaribe e o seu encontro com o Beberibe, à gentileza e ao carinho de prima Sarita e Rosário, a quem devo as minhas andanças pela cidade; enfim, à finalmente poder estar em Recife, cidade que carrego por toda minha vida em meu documento de identidade, mas só agora pude sentir seu calor, ouvir sua voz, comer de sua comida, olhar em seu rosto e dizer que nasci aqui.

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